Notas #005 - Rio turbulento

— 6 minute read

Quase afogados num rio turbulento permalink

Quando o PIX foi lançado, era comum ver alguém mandando um PIX de um real antes do valor de verdade. Era mesmo um teste: conferir se caiu, se o nome bateu, se é mesmo o banco certo.

Muita gente confundiu isso com medo ou resistência a tecnologia. Eu sempre via esses momentos com o olhar curioso de um pesquisador.

Existe um provérbio africano que descreve exatamente esse gesto: "Ninguém experimenta a profundidade do rio com os dois pés." Quem vai atravessar um rio desconhecido testa as águas. Para muitas pessoas, é importante entrar em um rio sabendo que dá pra sair.

Quando falamos de adoção de novas tecnologias, principalmente na era da IA generativa, sempre penso no conceito de agência, da teoria social cognitiva (Bandura, 2018):

A agência é a capacidade de uma pessoa fazer escolhas conscientes e agir sobre o mundo de acordo com suas intenções e objetivos, influenciando as próprias ações e as circunstâncias ao seu redor.

Moore e adoção de tecnologias.

Quando Moore (1991) conceituou seu abismo (que descreve a dificuldade de uma tecnologia passar do mercado dos entusiastas e primeiros usuários para o público mais amplo e pragmático.) com certeza não imaginou todas as nuances econômicas e epistêmicas relacionadas ao uso de AI. A teoria de Moore é bem focada nas barreiras mais racionais para adoção, como risco, dificuldade de uso, ausência de benefícios. A lente é a do mercado.

Fazer produtos digitais nunca foi só sobre a "coisa" construída, mas sobre evoluir um produto e gradualmente, entender as pessoas que o usam. Num cenário em que é cada vez mais fácil criar software em escala, a forma como as pessoas que tem conhecimento menor em tecnologia adotam essas soluções é cada vez mais importante. É pensar em quem vai atravessar aquele rio pela primeira vez.

A conversa sobre utilidade e até precisão da AI cada vez perde mais a importância. E tópicos como perda de autonomia, ameaça a identidade profissional e aversão a incerteza se tornam o centro da questão. Até o papa tem opiniões fortes sobre o assunto.

Pode ser que a maioria das pessoas nem ligue para isso. Mas as que ligam, com certeza serão bastante vocais. Historiadores como E.P. Thompson mostram que os luditas não eram simplesmente inimigos das máquinas. Resistir não é necessariamente rejeitar o futuro. Pode ser uma tentativa de preservar algo relevante.

Criar coisas novas no mundo mais ficou fácil. Fazer com que as pessoas confiem nelas é o próximo problema complexo para o design.

O PIX de um real hoje é a conversa por texto com uma AI com perguntas simples. O Brasil é o terceiro país que mais usa o ChatGPT no mundo, com cerca de 140 milhões de mensagens por dia: muita gente já testando a profundidade, um pé de cada vez.

A margem seguinte já aparece. Agentes conversacionais perseguem um objetivo, não uma resposta. Agem em nome da pessoa. Usar IA começa a significar delegar tarefas e aos poucos, decisões que importam.

A delegação cria uma tensão nova. De um lado, a autonomia do agente: quanto ele consegue operar sem pedir permissão a cada passo. Um agente que rascunha o e-mail e espera seu ok tem pouca. Um que remarca sua passagem e avisa depois tem muita. Do outro lado, a agência da pessoa: a sensação de controle sobre as próprias ações e suas consequências.

Equilibrar a autonomia dos agentes com a agência humana é o desafio. E requer entender profundamente como as pessoas desenvolvem confiança em uma nova tecnologia.

A Júlia Pupolin, recentemente escreveu sobre como os times de design e produto do Vale do Silício estão se adaptando para produtar com AI e criar agentes. Ela fala sobre como o comportamento de um agente passa a ser mais notado do que a própria interface. E que qualidade, contexto e confiança passam a ser diferenciais. Sobre confiança, ela diz:

Confiança se constrói com contexto, previsibilidade e um histórico de boas decisões.

Os pioneiros dessa travessia são os próprios times de engenharia. Desenvolvedores foram os primeiros a trabalhar com agentes no dia a dia. Um estudo de campo recente resume o que aprenderam já no título: Professional Software Developers Don't Vibe, They Control.

A pesquisa foi inconclusiva sobre o quanto os agentes aceleram o trabalho.Mas sobre como se confia neles, já temos resposta: um passo de cada vez, sem soltar o controle.

Entender como as pessoas percebem atributos de qualidade em experiências com AI, e como elas criam confiança no tempo é um assunto que tenho me debruçado nos últimos tempos. Ainda não tenho tantas respostas, mas o assunto é fascinante e imprevisível.

É como um rio que além de turbulento, muda seu curso a toda hora. E a areia é movediça. Mas do outro lado da margem existe uma promessa: o fim das tarefas repetitivas e mais tempo de qualidade para as pessoas focarem no que importa. Mas ninguém vai chegar lá nadando mais rápido. Teremos que aprender onde pisar.

Referências:

BANDURA, Albert. Self-efficacy: the exercise of control. New York: W. H. Freeman, 1997.

BREHM, Jack W. A theory of psychological reactance. New York: Academic Press, 1966.

Lifshitz-Assaf, Hila et al. (2021) — Dismantling Professional Boundaries

MOORE, Geoffrey A. Crossing the Chasm: Marketing and Selling Disruptive Products to Mainstream Customers. 3. ed. New York: HarperBusiness, 2014.

Moore, J. W. (2016). "What Is the Sense of Agency and Why Does It Matter?". Frontiers in Psychology

Professional Software Developers Don't Vibe, They Control" (Huang et al., UC San Diego, 2025)