Tentando entender os #protestosBr – Volume 142

Antigamente, no tempo da web moleque, marota, existia um negócio chamado bridge-blogging, que resumidamente é a ação de blogar linkando ideias ou pessoas dentro de um tema. Desde de que as manifestações começaram a tomar corpo, a única coisa que temos certeza é que está todo mundo tentando entender não só o que está acontecendo, mas os motivos, desejos, ideologias e whatever para algo tão significativo acontecer no Brasil. Algo que é diferente da praça Tahir no Egito, diferente de Occupy, diferente de Gezi na Turquia, diferente de tudo que já vivemos.

Esse post, obviamente, não tem como objetivo explicar fenômeno tão complexo, mas fazer uma ponte com algumas ideias que vi compartilhadas recentemente por pessoas bacanudas lá na rede do Zuckinho e que merecem estar juntas para a posteridade.

A primeira dessas pessoas é o Augusto de Franco, que no post 7 pontos para entender porque as manifestações de hoje são diferentes tenta explicar novamente as questões interação x participação e analisa os protestos com seu óculos-de-enxergar-redes e porque são diferentes de outras revoluções. Junto com este outro texto, é material instigante para entender como as coisas estão acontecendo.

O inovador dessa movimentação incrível (e inédita) que estamos vivendo no Brasil é que ela não tem organização top down, não tem direção, foi convocada de modo distribuído P2P e com a utilização de midias interativas. Ou seja, a despeito dos sinceros esforços dos que querem convocá-los e orientá-los, os eventos estão sendo organizados pelos próprios participantes, pessoalmente ou clusterizados em múltiplos grupos que não podem ser representados por ninguém.

A segunda é o meu amigo Juliano Spyer, que no post abaixo tenta entender esse novo bicho, que parece de 7 cabeças, mas não é. É só um bicho novo para gente.

Também estou curioso e amedrontado para ver o que está para vir das movimentações no futuro próximo. Mas estou feliz com o quanto sinto que todos crescemos transformando teoria em prática e vice-versa, nas muitas conversas e ações vividas nas ultimas duas semanas. Aqui vai a minha contribuição:

Há um bicho que nasceu, que saiu para a luz; um bicho com muitas raivas e que deve ser tratado como tal. o bicho nao pensa; o bicho está desabafando, chorando, gritando, se defendendo, vomitando tudo o que engoliu.

acho complicado chamar o bicho de fascista. acho que o bicho é jovem, é idealista, é em parte ingênuo (e sonhador), sente que tem algum poder e está animado com isso.

acho que o bicho é filho de uma classe média que está desiludida e cansada. cansada de ter medo da polícia e do bandido, do transito infernal, dos políticos aumentando o próprio salário, dos investimentos superfaturados para a Copa e para as Olimpíadas.

nao acho que o bicho esteja errado ao atacar a participaçao de partidos políticos nas marchas. o bicho não pensa que não sem partido não há governo. para o bicho, os partidos tiveram seu momento e há uma grande desilusão em relação aos resultados até aqui.

tendo vindo da classe média, o bicho está decepcionado com o PT e com os partidos de esquerda em geral. na verdade, todos nós, ex-militantes e simpatizantes nos sentimos traídos pelo que o partido se tornou, com sarneys, renans, collors, etc.

dizer que o bicho é fascista implica em dar a ele uma unidade ideológica que ele nao tem. o bicho quer soltar seus cachorros e não está pensando nas consequencias.

o que o governo pode fazer agora? pode tratar o bicho com respeito. pode pressionar o congresso para votar rapidamente pautas importantes para o bicho e que vem sendo proteladas: cassaçao de corruptos, 10% para educação, etc. pode dar provas de que será mais transparente nas decisões.

o que nós podemos fazer agora?

bom, nós fomos para uma festinha que virou um festão, pegou fogo (no bom sentido), amigos de amigos de amigos foram chegando, muita bebida, vizinhos insones chamaram a polícia, houve desgastes, também pessoas começaram a brigar e quebrar coisas na festa, o som saiu do controle e está tocando música alta de qualidade duvidosa.

um caminho para a gente é ir embora para casa e esvaziar a movimentaçao. isso ajuda a reduzir a pressão do ambiente. outro caminho, para os mais amigos do dono da casa, é ficar lá até o final, pegar uma vassoura, fazer um café forte e começar a varrer o chão.

E a terceira é de uma moça chamada Karla Lopez, que ainda não conheço, mas que descobri no feed do Marco Gomes, que tem sido uma fonte importante de informação sobre os protestos. O texto dela é deliciosamente simples e trata de forma empática e sensível da dor de não saber para onde ir.

Eu sou extremamente contra qualquer tipo de violência e, mesmo sendo extremamente apartidária, condeno também a violência contra as militâncias.

Eu entendo a importância história e política dos partidos. Sei que nenhuma mudança política acontece sem eles. Mas vamos admitir que faltou SENSIBILIDADE na hora em que as militâncias tomaram a decisão de ir pra rua ontem. Faltou respeito a dor do povo.

O povo está de luto. Não gosto da palavra luto porque em português ela perde um pouco o sentido de “processo” e ganha a figura da pessoa vestida de preto após um enterro. Não é esse luto, é o “mourning”. O processo de dar adeus, de se despedir.

As pessoas queriam estar na rua juntas, como pessoas, e velar a acomodação política que vivemos desde sempre. Arrancar de dentro do coração tudo de ruim que vem a mente quando pensamos em política.

Ainda não era hora.

Todo mundo precisa de tempo pra se curar. Tempo pra contemplar a mudança e se acostumar com a nova postura. Ainda dói, a gente ainda tem medo. A gente foi enganado por muito tempo e achávamos que não dava pra fazer nada.

Imagina que você apanhou do marido por 50 anos, achando que não podia deixa-lo. Quando o faz, seria saudável cair no samba com outros rapazes pra curar o medo, a falta de auto-estima e confiança que cultivou durante meio século? Eu acho que não. É hora de se reconstruir, de se conhecer, de enterrar o que aconteceu, pra então começar de novo.

Ninguém merece ser acuado, agredido e humilhado por acreditar no que acredita. Mas se você é uma pessoa politizada, militante, eu esperava que você entendesse mais de povo, de gente, e se solidarizasse com a dor de quem acabou de quebrar um círculo vicioso e está tentando entender qual é o próximo passo.

Crescer dói. Respeite a dor.

Cada um tem seus pontos de vista, e alguns até se contradizem. Mas é gostoso pode ler, matutar e ficar admirado com o rendimento fantástico desses 0,20 centavos em ideias com potencial transformador. Me dá esperança de que essa chacoalhada é séria o bastante para criar interações novas e mudanças positivas. Feeling hopeful.

* O desenho que ilustra esse post é uma piada. Uma piada de quem já desistiu há tempos de rotular e quem mais é pular no Fluzz.

2 Responses to “Tentando entender os #protestosBr – Volume 142”

  1. Daniel Souza

    Boa tarde, Daniel!

    Meu nome, como pode perceber, também é Daniel. Sempre verifico se a url danielsouza.com está disponível para utilização, mas nunca dou sorte! Vi que seu último post foi em 2013 e pensei em te enviar essa mensagem perguntando se ainda vai usar esse domínio.

    Por favor, se puder, me responda.

    Agradecido,

    Daniel Souza

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