Marina Morena, você me deixou

Lembro como se tivesse sido ontem, do nosso primeiro encontro lá no Yellow Blues Bar: Descobrimos logo de cara que tinhamos um monte de coisas em comum, e sacanear o Sapo era uma delas. De uma pequena afinidade, nasceu uma amizade enorme, quase que inacreditável – nós dois não acreditavamos ainda em amizades entre homem e mulher, lembra? 

Difícil esquecer dessa época. Nossos passeios na Lagoa do Nado, dos almoços e conversas com Cycy e Dona Mary Help, das noites de rock lá no condomínio e dos shows da Nação Zumbi.. Os rolês e cervejadas na casa do Nunu, com o Thiago, a Memê. 

Ainda no século 20, fomos separados pela minha primeira migração, para o Pará. Neste tempo tivemos pouco contato, mas sempre que nos viamos era como se ainda fossemos vizinhos na Pampulha, e o seu sorriso belo me fazia ter vontade de voltar para Belo Horizonte, sentia falta de você de de meus amigos verdadeiros.

Dois anos depois, num golpe de sorte, nos reencontramos de novo, em Brasília. Parecia até brincadeira, porque tinhamos combinado em morar juntos um dia, e nem acreditei quando isso aconteceu. Foi realmente surreal dividir aquela flat da  714, lugar famoso pela presença das meninas da vida. Lembro da nossa varanda, do frigobar lotado de cerveja e de você chegando do trabalho a noite, e eu te vigiando lá de cima. 

E lembro do nosso apê da 711, do encontro mágico com a Luciana Homsi, depois de quase um mês desesperados para encontrar um lugar bacana. Da primeira noite dormida no apê vazio, deitados somente em um edredom e com uma garrafa de água. De cada discussão enorme para comprar cada coisa boba, como um utensílio de cozinha ou um móvel. Da nossa casa pronta, e das festinhas no tapete. De você sempre tomando a última cerveja e ficando vesga. Da vinda do Wallace, e de vocês dois conspirando para me irritar. Da zoação com a Roberta e as meninas da loja. Da visita da Cycy e do Beirute. Da sua tartaruga, que hoje está aqui na minha sala. Da nossa parede. De correr de você quando tinha clássico mineiro, porque a mandinga era forte e seu time sempre ganhava quando assistiamos o jogo juntos. Das famosas macarronadas, tão apreciadas pela Vê, Mattioli, Hélio e Vini. De como você acolheu a Leili. 

Lembro como foi difícil para mim apoiar você na busca de seu sonho, de fazer música. Significava que você estaria distante, que sua nova casa era o Rio. E depois fiquei tão orgulhoso de te ver conseguir alcançar tudo isso. Como fiquei feliz em te ver tão feliz, fazendo parte de algo maior, uma verdadeira sambista!

Nega, a partir deste momento o roxo não será mais o mesmo. Eu e milhares de mineiros, candangos e cariocas seremos mais sisudos. Como bem disse o Mattioli, o mundo perdeu o melhor abraço. Como disse o sapo, o Rio perdeu sua mulata mais bela. E como dezenas de pessoas vão dizer, o Brasil perdeu seu sorriso mais belo.

Fiquei sabendo há pouco que seu último adeus será amanhã, em Belo Horizonte. Me recuso a ver isso, a te ver sem sorrir, estática. Quero guardar para mim outra imagem de você. Já tinhamos sonhado tantas coisas juntos, mas nunca sequer brincamos e pensamos na morte. 
Tenho certeza que agora você está no céu, dividindo a mesa com o Mussum, Cartola e com a Cássia. Descanse em paz e saiba que sempre amaremos você, e que a partir de agora vou parar de chorar, porque isso seria um insulto a sua alegria, que é eterna.  

  

3 Responses to “Marina Morena, você me deixou”

  1. Hélio Miranda

    Marina deixa muitas saudades e ótimas lembranças das conversas e gargalhadas… MInha amiga do peito… não esperava que fosse tão cedo… vou guardar seu sorriso no coração.

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  2. Rosana

    Daniel, tive o gde privilégio em dividir algumas horas (mesmo que poucas) com a Marina…pois nos últimos meses, ela morou comigo…ou melhor, eu acho que eu quem morei com ela.Ela falou muuuito de você nos últimos dias. Contava histórias da convivência que tiveram …e com certeza, do enorme carinho e saudades que sentia de você!!Excelente colocação a SUA, qdo disse: "a partir de agora vou parar de chorar, porque isso seria um insulto a sua alegria, que é eterna". Marina é pura alegria, astral, energia, cores vibrantes, sorriso aberto, flor, brilho, luz…VIDA!!Ela continua sendo vida. Mesmo que não fisicamente entre nós, mas tenho a certeza, que através de outras formas. Não sei dizer quais, mas sei que ela está com nós…por nós.. e pela VIDA!Como ela estava feliz…e a busca de vôos bem mais altos… e sabe Deus quais!! Tenho certeza, que ela está BEM…FELIZ, AMADA. E de onde ela estiver, estará olhando por nós e querendo nos ver FELIZES, sorridentes e otimistas. MARINA: Fique em Paz !! Bjs de quem te adora, Rosana

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  3. Aline Queiroz

    Que linda homenagem, Daniel! Não conheci a Marina, mas certamente ela era tão brilhante quanto seu texto e tão bela quanto esses sentimentos que você compartilhou. Fique em paz, querido. Pense que ela agora tá lá tomando um ‘mé’ com o Mussum e sorrindo igualzinho aí na foto… Beijos!

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