Blog da Bethania, Piranhas e Mais poesia ( menos dinheiro)

Um dos assuntos mais falados da semana é o tal do blog de 1,3 milhões de Maria Bethânia, celeuma que foi provocada pela fofoqueira da folha neste mal escrito artigo. Alguns analisaram as minúcias do projeto. É talvez a pior documentação de um projeto – seja de web ou filme – de todos os tempos, apesar de ter pessoas competentes envolvidas, como o pessoal da Aorta e o Felipe Vaz. A maioria simplesmente "desceu a lenha" e alguns conseguiram me surpreender positivamente pelo pragmatismo e pelo olhar diferenciado da situação. 

O Juliano Spyer fez algumas observações interessantes, mas a melhor delas foi a percepção do comportamento "piranha" da cena hipster da internê brazuca (imagem que ilustra este post). Um "influenciador" acende o fogo, e em instantes milhares de pessoas estão descendo a lenha na famosa irmã de Caê.

A Yaso conseguiu ser certeira como uma flecha, e tocar em um ponto importantíssimo: Como pode uma lei de incentivo cultural não prever que obras financiadas com dinheiro público tenham licenciamento aberto? Devia ser item de edital: produziu com $ da Lei Rouanet, tem que no mínimo estar disponível para download no dia seguinte.

O Duende destilou seu veneno, e apontou com uma clareza épica quais são os reais problemas do MinC e do Governo Dilma, que não se limitam a leis que não funcionam. Não concordo com todas as coisas ditas por ele, mas é uma visão livre de ideologias ( se isso é possível) e aponta o cerne da questão: No final das contas, "quem se fode é você, que vota e acredita". 

Mas de todas as reações geradas pelo assunto, o que mais me chamou a atenção é que as pessoas entenderam que existe um problema real a ser resolvido, existe uma missão não cumprida: O que podemos fazer para democratizar o acesso a poesia? E com a visibilidade do assunto, as soluções criativas já começaram a aparecer: Paulo Rená começou com um twitter, o @maispoesia . Você grava um poema a sua escolha, manda pro Youtube e a conta publica automaticamente. Já o Fred Leal começou o 365 poesias com textos inéditos, filmados por seus autores. 

É cada vez mais difícil para os Governos fazer escolhas isentas de politicagem na hora de fazer investimentos, mas a imensa capacidade do brasileiro de se virar, de comunicar e replicar suas gambiarras me faz acreditar que não precisamos de Bethanias, mas de milhares de Anônimos que realmente acreditam em compartilhar cultura, conhecimento, atenção. 

   

2 Responses to “Blog da Bethania, Piranhas e Mais poesia ( menos dinheiro)”

  1. prenass

    Olá Daniel. Parabéns pela pesquisa e compilação dos links, com a devida explicação do que está acontecendo. Se todo jornalista fosse assim, por exemplo, seria mais fácil desenvolver discussões sobre temas públicos.Quanto à polêmica, acho que a Internet só tem a diferença de tornar públicas as insatisfações que seriam mencionadas em mesas de bar, salas de jantar, quadras de futebol, academias, corredores e outros locais públicos que não permitem o registro. Na rede, as opiniões formam um espaço público mais intenso, mas a natureza e o conteúdo, mesmo quando cruéis, entendo que já existiam antes e vão continuar a existir sempre. Coisa do ser humano em sociedade.Como defendeu o pablo villaça, não podemos tomar por principais os argumentos de quem apenas está sendo irônico ou brincalhão sem maiores pretensões. Os argumentos sérios e embasados, que permitem dialogar sobre a discordância, esses sim devem ser considerados e respeitados. Só discordo de quem eu respeito. De outra forma, ignoro solenemente.Obrigadíssimo por engrossar o caldo do Mais Poesia Menos Dinheiro. Vejamos como a coisa segue durante o dia. Ah, e se alguém puder me ajudar, eu ainda não sei como fazer um bot que possa retuitar automaticamente os posts ;)

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  2. felipevaz

    oi Daniel, bacana a tua compilação e as observações. Concordo com o Juliano; acho perfeita a observação da Yaso sobre liberar tudo e repito isso há tempos; e concordo em grande medida com o Duende. E acredito que a Rouanet precisa de reforma urgente.Como meu nome foi citado como "envolvido", é só importante dizer do meu lado. Em 2009 eu fui convidado a apresentar um orçamento e um minicurrículo pra um projeto de um site onde se postaria uma poesia por dia, declamada pela Bethânia, ao longo de um ano, e cobrei o preço que achei justo pra fazer muito bem feito — peço que qualquer um que queira questionar vá ver quanto é, sabendo que o que foi aprovado é menos do que o que está lá, e se a captação não for integral, provavelmente o que me caberá será menos ainda. Tá lá no projeto pra quem quiser ver, sob a rubrica "webdesign" — não é só isso o trabalho, mas tudo bem. Hoje eu acho pouco, e sinceramente cobraria mais. Além disso, recomendei reservar algum $ pra eventual manutenção/ajustes depois da entrega do projeto. O resto do projeto e das cifras eu só conheci anteontem, no meio da celeuma, e de fato há outras coisas que acho caras ali, só não são diferentes do padrão da Rouanet ou do audiovisual e não tenho conhecimento de audiovisual ou de cachê de artista consagrado pra avaliar com propriedade, prefiro não julgar. Eu particularmente prefiro o dinheiro pulverizado em pontos de cultura, por exemplo.Posto isso, a discussão sobre o assunto na internetosfera, se ganhar um pouquinho só de profundidade e sair do linchamento moral inconseqüente, é sensacional. Ela possivelmente indica duas coisas:1) talvez nós, trabalhadores da internet, tenhamos síndrome de viralata. Se os preços do audiovisual são caros, nós somos os nerds que achamos maneiro fazer tudo baratinhoe nos orgulhamos disso. Alguém disse, com propriedade, que se o MESMO material fosse um DVD vendido pela Biscoito Fino (pago, a R$ 70), ninguém reclamava. Se fosse um filme exibido em digital em uma sala no Rio e outra em SP (pago e com anúncios, R$ 25) por uma semana, ninguém reclamava. Se fosse pra ser exibido no Canal Brasil (fechado, pago por mês e com anúncios) uma única vez, ninguém reclamava. Na internet, muito mais acessível e perene, parece a muitos um absurdo. É coisa pra se pensar…2) como diz um amigo meu, estamos vivendo o choque entre a geração da indústria cultural do século XX e a geração da democratização radical da produção e distribuição da cultura. Daí parecer absurdo de um ponto de vista e de outro não. Neste projeto, de certa forma as coisas estão misturadas. Isto também explicaria a batalha em torno da LDA. De toda forma está claro que com o MinC, a LDA e a Rouanet na berlinda — mesmo que a discussão atual ainda dê margem a todo tipo de tosqueira e julgamentos rasos — a sociedade está enfim dando atenção a isso e discutindo como nunca antes aconteceu. Isso é por si só incrivelmente positivo. Me parece ainda um indicativo da importância que o MinC ganhou ao longo dos últimos 8 anos, porque é impossível pensar no MinC ou na LDA como objeto de discussão da sociedade mais ampla até 2002. Quem esperaria algo do governo nesse sentido até então? Eu não esperava nada.abraço!

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